sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Um dia tenso na Europa Central. (9º Dia)

Esse era pra ser um dia simples de viagem entre Oswiecim e Viena. Foi um dia de viagem. Mas não foi simples.

Começou na noite anterior. Logo após a visita a Auschwitz, fui até a estação de trem para fazer a reserva da viagem até Viena. Vi que havia só duas opções de horário: um às 6h53 da manhã e outro às 23h42. Teria que acordar bem cedo, mas pelo menos chegaria em Viena à luz do dia.

Só para explicar: o europasse dá direito às viagens de trem de acordo com sua categoria. Alguns trechos, principalmente aqueles entre países diferentes exigem reserva antecipada, o que às vezes é pago ou não. Nas tabelas de horário sempre há a indicação da necessidade com um “R”. No caso de Oswiecim – Viena eu notei que era necessário.

Só que no guichê da estação, uma mulher polonesa de nome ignorado e educação inexistente me disse num “polonglês” quase incompreensível: “Osshwiéshin nie rezervu. Krakow rezervu.”
Entendi que ali não era possível fazer reservas e que eu deveria ir a Cracóvia. Tentei perguntar no meu bom inglês (sim, ali ele era perfeito!) se eu poderia pegar o trem das 6h53 até uma das estações do caminho e lá fazer a reserva, em vez de voltar a Cracóvia, que ficava no sentido oposto.
Obviamente ela não entendeu nada do que eu disse e respondeu em bom polonês. Eu disse que não entendia e ela fez apenas uma careta, deu de ombros e resmungou mais algo em polonês que em bom português eu entendi como sendo “impublicável”, se é que fui claro.

Essa última resposta dela, quer dizer, o “deu de ombros” acaba com qualquer sentimento civilizado, que até uma pessoa razoavelmente calma, como eu, é capaz de subir no guichê, quebrar o vidro a pontapés, destruir o computador da mulher jogando na parede e olhar pra ela com sangue nos olhos e espuma saindo do meio dos dentes... ops! Desculpe aí... acho que delirei...

O máximo que eu fiz foi dar as costas e nem dizer “dziekuje”, o obrigado em polonês. Nem em língua nenhuma. Fiquei, digamos, sem palavras.

Ainda dei uma volta pela pequena estação procurando algum sinal que me ajudasse, mas nada. Tudo escrito em polonês e as tabelas de horários eram complicadíssimas. Nada a ver com os painéis eletrônicos de Praga, por exemplo.
Pelo menos consegui descobrir os horários dos trens para Cracóvia e de lá para Viena. Pegaria o das 7h36 aqui e o de lá sairía só às 11h47. Tempo de sobra. Poderia até dormir um pouco mais e sair daqui às 8h43. Mas arriscar numa hora dessas é aventura demais pro meu espírito.

Voltei pro hotel e pesquisei na internet as opções que eu teria. Não cheguei a nenhuma solução melhor, então foi o que fiz.

Cheguei em Cracóvia e comecei a procurar os horários de trem para Viena, a fim de escolher o de meu interesse e aí sim chegar no guichê para pedir a reserva. Não achava Viena em lugar nenhum.

Nenhum trem ia de Krakovia para Viena!

Pelo menos era o que diziam as tabelas de horários afixadas nas paredes. E agora?

Decidi confirmar na internet antes de tentar me comunicar com alguém. Coloquei umas moedas num totem para internet e procurei o site da Eurail ou o da Rail Europe para me certificar dos horários. Lá estava o trem das 11h47, conforme havia visto. Olhei na tabela da parede e vi que às 11h47 só tinha trem para Katowice.

Bingo!

Aclélio, seu burro. Você precisava fazer a reserva de Katowice para Viena e não a partir de Cracóvia. De Cracóvia para Katowice era um trem e lá tinha que trocar de trem – tipo conexão, entende? Como é que eu não descobri antes? Sem comentários...

Corri parra o guichê, solicitei a reserva de Katowice para Viena e fui prontamente atendido. Não custava nada extra. Agora bastava descobrir a plataforma que o trem saía, pois não tinha painéis eletrônicos...

Descobri, esperei um pouco e entrei no trem.

Em Katowice...

Cheguei e dei de cara com uma estação maior do que a de Cracóvia, mas igualmente confusa. Poluição visual total e nada em inglês, de novo. Como descobrir qual a plataforma que saía o trem para Viena? E eram 13h33 e ele sairia às 14h06.

Um enorme painel sobre os guichês tinha o meu trem, mas não tinha legenda para eu saber qual era a plataforma. Resolvi perguntar (13h38).

Entrei numa fila e demorou demais. Resolvi procurar mais um pouco. Não adiantou (13h43).

Entrei em outra fila. Também demorou e resolvi perguntar para duas jovens – sempre há mais chance de falarem inglês. Elas falavam, mas não sabiam (13h47).

Corri para o andar de baixo, já meio desesperado. Detalhe: Mochila nas costas, bolsa a tira-colo e mala com rodinha meio emperrada. Não tinha escadas rolantes e procurar elevador era impensável.
Vi que os guichês do andar de baixo eram da mesma cor dos que fizeram a minha reserva em Cracóvia. Entrei numa fila pra perguntar e estava demorando. Perguntei para uma moça na fila (13h52).

Não era uma moça. Era um anjo.

Ela olhou o horário no meu bilhete e disse: “Melhor eu te levar lá do que tentar explicar.” Subimos novamente ao andar de cima e ela olhou no painel sobre os guichês. Um numerozinho embaixo dos destinos era a plataforma. Número 4!

Agradeci, mas ela disse de novo: eu te levo lá! Dois loucos correndo pela estação, eu com a mochila nas costas, bolsa a tira-colo e mala de rodinha emperrada, descemos umas escadas, subimos outras para a plataforma e lá chegamos. Ela ainda confirmou com as pessoas que lá estavam que ali era a saída para Viena, mas o trem ainda não tinha encostado.

Ufa!

Agradeci muito àquele anjo. Ela me pediu um cigarro, mas eu não tinha e saiu rapidamente. Só depois eu me toquei que poderia ter dado uma moeda para que comprasse... mas agora foi.

Mas a aventura não acabou!

Encostou um trem, mas o painel que fica ao lado do vagão não indicava Viena. Perguntei ao funcionário e ele disse que realmente não era aquele trem e que eu devia esperar outro. Tudo bem. Eu já tinha percebido que a pontualidade não é tão européia quanto antigamente. Já tinha passado do horário, mas havia na plataforma várias pessoas que, pelo que escutei, entendi que iam para Viena.

Os segundos foram passando e a tensão aumentando. Aquele trem ali parado, fechado, e nada. De repente, o sistema de som anuncia alguma coisa - em bom polonês - e várias pessoas começam a sair da plataforma.

Bateu o desespero.

Perguntei para dois mochileiros se eles iam para Viena e eles disseram o nome de outra cidade que eu não lembrei se estava no caminho. Insisti perguntando se seria o mesmo trem para Viena quando uma mulher que já estava na escada gritou: “Wien, Wien”, apontando para o trem parado na plataforma ao lado da nossa, cujo acesso era descendo as escadas aqui e subindo as de lá.

Nem esperei a resposta dos mochileiros e corri para a escada, com a mochila nas costas, bolsa a tira-colo e mala de rodinha emperrada.

Entrei no trem, ele fechou a porta e saímos.

Ai, ai...

...cheguei em Viena às 19h12. Praticamente 12 horas depois de sair do hotel em Oswiecim.

Amanhã eu conto a chegada. Tenho que descansar porque só de lembrar de tudo isso deu um cansaço... hehe

Até!

7 comentários:

  1. Uiiii, acho que eu parava e começa a chorar, que desespero!!! Que medo, aaahhhh ....

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  2. Caramba Junior, foi melhor que ler um bom livro!!! Juro que me empolguei e me desesperei junto com você!!! Não vou sair da frente do computador esperando o próximo capitulo...
    Parabéns, está demais!!!

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  3. Aclélio, que sufoco!!!!!
    Mas como eu sempre digo, com emoção fica muito melhor.

    Adoro acompanhar as viagens dos amigos pelo blog, viajamos um pouquinho com vocês.
    Beijo e boa viagem.

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  4. JR Bourne na Polônia....

    Haja Anjo da Guarda :-)

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  5. Noosssa!!! Que aventura...realmente tá digno de um bom livro ou um filme de ação!!!

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  6. hahahahah
    Nossa, adorei! Dei muita risada, fiquei cansada sentindo o peso da mala e bolsa tira colo e não sei mais o que, e fiquei desesperada também!
    Concordo com a Mariana, eu sentaria e chorava! Não tem guia lá dentro não? E policia? Ah, governos, tudo igual!
    Mas ADOREI!!

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  7. Carolina C Hoffmann26 de out de 2009 15:45:00

    hahaha...
    Meu Deus, que desespero!!! Mas vc se saiu bem, parabéns!! rsrs
    Eu no seu lugar acho que tinha parado na metade do caminho.
    Seu blog está o máximo!!! Continue escrevendo até o último minuto, hein?!
    Bjs.

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